A busca por inteligência extraterrestre (SETI – Search
for Extraterrestrial Intelligence) envolve numerosos projetos. Todos
eles objetivam encontrar evidências de inteligência
extraterrestre através de sinais de rádio vindos do
espaço. O primeiro desses projetos foi levado a efeito em
1960 pelo astrônomo Frank Drake, atual diretor do SETI Institute.
O principal projeto do instituto recebeu o nome de Phoenix, com
um orçamento anual de 4 a 5 milhões de dólares.
O projeto utiliza grandes radiotelescópios para captar sinais
provenientes de estrelas semelhantes ao Sol, que estejam a menos
de 200 anos-luz de distância. Além do SETI Institute,
outras instituições de pesquisa trabalham em projetos
similares; são elas: SERENDIP (Search for Extraterrestrial
Radio Emissions from Nearby Developed Intelligent Populations);
SETI@Home da Universidade da Califórnia, Berkeley; Southern
SERENDIP, na Austrália; Harvard SETI Group e outros.1
Por que os cientistas envidam todos os esforços nesse
tipo de atividade? Uma rápida olhada na história
do pensamento humano pode ajudar-nos a entender a questão.
Até o século XIX, a maior parte do mundo cristão
cria que o cosmos e tudo o que nele há eram resultado da
criação divina. Os cientistas davam pouca atenção
a questões sobre a origem do universo e da vida.
Entretanto, a partir do século XVII, os cientistas descobriram
processos regulares na Natureza, que podiam ser explicados por
meio de leis abrangentes, algumas vezes expressas na linguagem
precisa da matemática. Essas leis naturais e suas teorias
permitiam fazer predições de fenômenos, e
promover o desenvolvimento de tecnologias que possibilitavam até
o controle da própria Natureza. Como resultado, em meados
do século XIX, fortaleceu-se a idéia de que a figura
de um Deus Criador era desnecessária para explicar os fenômenos
naturais. O cosmos se tornou a realidade fundamental. Nessa cosmovisão
denominada naturalismo ou materialismo, a busca por uma explicação
sobre a origem de tudo, sem menção de um Criador,
constituía-se uma necessidade lógica.
A procura pelas origens resultou na teoria da diversidade biológica
e levou, em 1859, à publicação do livro A
Origem das Espécies, de Charles Darwin. Na mesma época,
Pasteur abordou experimentalmente a questão da origem da
vida, demonstrando que as velhas idéias sobre geração
espontânea eram falhas. Porém, a cosmovisão
naturalista requer que a vida tenha surgido de combinações
não dirigidas de matéria, seguindo apenas as leis
da física e da química, sem a intervenção
de um agente criativo inteligente. Ernst Haeckel, um biólogo
alemão, e Thomas H. Huxley, partidário de Darwin,
entendiam que o processo de origem da vida era simples, pois não
conheciam detalhes da estrutura das células vivas.
Apesar do otimismo inicial, nenhuma teoria adequada sobre a origem
da vida foi desenvolvida até agora, e os livros didáticos
de biologia ainda citam as hipóteses do bioquímico
russo Oparin (c. 1930), e os experimentos de Stanley Miller, da
Universidade de Chicago (1952), como progressos nessa direção.
Apesar dessas experiências terem falhado na tentativa de
explicar a origem natural da vida, as suposições
naturalistas ou materialistas defendem a idéia de que a
vida surgiu sem a intervenção de um Deus inteligente.
Considerando a teoria em voga sobre a origem do Universo e da
Terra, o surgimento da vida no planeta ocorreu de forma bastante
rápida. (Segundo essa teoria, a idade do Universo é
de 10 a 20 bilhões de anos. A crosta terrestre teria 4,5
bilhões de anos e a vida surgiu há cerca de três
bilhões de anos). Considerando a existência de um
número estimativo de 400 bilhões de estrelas em
nossa galáxia, e de cerca de 100 bilhões de galáxias
no Universo, é razoável supor que muitas dessas
estrelas possam ter em seus sistemas planetas semelhantes à
Terra, nos quais a vida tenha se desenvolvido como ocorreu em
nosso mundo, resultando em civilizações tecnológicas
capazes de transmitir mensagens de rádio. Esse arrazoado,
com base numa cosmovisão naturalista, é a motivação
por trás dos projetos SETI.
A metodologia
Os diversos projetos SETI procuram sinais de rádio de
banda estreita com freqüência definida, como os sinais
de nossas estações de rádio e TV. As fontes
naturais de ondas de rádio vindas do espaço geralmente
produzem sinais de banda larga, enquanto que os transmissores
de rádio e TV apresentam freqüência específica.
Fazendo uma analogia com as ondas sonoras, uma estação
de rádio ou TV emite uma nota simples como o som de uma
flauta, enquanto que as fontes de rádio naturais produzem
um som semelhante ao de uma cachoeira. Espera-se que extraterrestres
inteligentes construam transmissores de rádios semelhantes
aos nossos. Também se espera que algum ser inteligente,
que deseje transmitir ondas eletromagnéticas através
do espaço, use uma freqüência de cerca de 1420MHz.2
Se um sinal com essas características for detectado, é
necessário verificar se ele não provém de
fonte humana, como ocorre com os radares ou os satélites
de comunicação.
Se um sinal apropriado for detectado, o próximo passo
será verificar se há nele alguma evidência
semelhante às ondas de radio ou TV. É possível
introduzir informação numa onda eletromagnética,
mediante pequenas variações intencionais (modulações)
em sua freqüência ou amplitude. Os projetos atuais
estão operando apenas na busca de um sinal adequado. A
procura por uma mensagem num sinal, caso seja encontrada, irá
necessitar de nova instrumentação.
Outra questão diz respeito à possibilidade da compreensão
da mensagem. Se os extraterrestres são capazes de transmitir
sinais de rádio, provavelmente compreendem os princípios
básicos da ciência e da matemática, e os utilizam
na elaboração de uma linguagem comum.
Desde o início das pesquisas de Frank Drake, há
40 anos, nenhum sinal convincente foi detectado.
O sucesso na ficção
Carl Sagan, entusiástico divulgador da ciência e
professor de astronomia e ciência espacial da Universidade
de Cornell, escreveu um romance intitulado Contato.3 A história
descreve os problemas que os cientistas enfrentam a fim de obter
fundos para suas pesquisas, e sugere a detecção
de um sinal de rádio com os atributos exigíveis,
proveniente de Vega, uma estrela da constelação
de Lira distante 26 anos-luz da Terra. O descobridor percebe que
o sinal está transmitindo uma longa seqüência
de números primos. Como não se conhece nenhum fenômeno
natural gerador de sinais com estrutura tão complexa e
específica como uma seqüência de números
primos, os cientistas desse relato ficcionista se convenceram
de que a transmissão vinha de uma fonte inteligente.
Mas como distinguir se um sinal provém de uma fonte natural
ou é devido ao desígnio de um ser inteligente? A
melhor evidência de que algum efeito foi tencionado por
uma inteligência é sua complexidade especificada.4
Para compreender o que é complexidade especificada, considere
o seguinte exemplo:
A seqüência com os dois primeiros caracteres romanos
AB é especificada, mas não complexa.
Uma seqüência aleatória com 40 caracteres como:
GIVJFJMUUDWQCN TQVTNVXYALZFHMBHULVCXRTPF é
complexa, mas não especificada.
Entretanto, a seqüência BUSCA POR INTELIGÊNCIA
EXTRATERRESTRE é complexa e especificada.
Pode-se ver a diferença pela determinação
da probabilidade de obter cada seqüência escolhendo
caracteres por casualidade. Como cada posição na
seqüência tem 27 opções (26 caracteres
mais o espaço em branco), pode ser obtido um total de 729
(27 x 27) seqüências com dois caracteres. A seqüência
especificada com dois caracteres é uma em 729 seqüências.
Por outro lado há 2740 (= 1,797x1057) seqüências
diferentes com 40 caracteres (o número 1,797x1057 é
equivalente a 1.797 seguido de 54 zeros). Esse número é
tão grande que dificilmente poderíamos entender
seu significado. É 600 vezes maior do que a soma de todos
prótons e nêutrons que constituem o planeta Terra.
Assim, uma seqüência específica composta de
40 caracteres alfabéticos é uma em 1,797x1057 seqüências.
É praticamente impossível obter uma seqüência
específica com esse tamanho, pela escolha aleatória
de caracteres. Sabemos por experiência que seqüências
complexas específicas são o resultado de um desígnio
inteligente.
Em suma, a busca por inteligência extraterrestre procura
ondas de rádio com características semelhantes às
produzidas por transmissores construídos pelos homens.
Se um sinal assim for detectado, o próximo passo será
investigar se há complexidade especificada nele. Em outras
palavras, os cientistas estão procurando alguma transmissão
de rádio extraterrestre que possa, sem dúvida, ser
reconhecida como produto de uma mente inteligente.
O sucesso não reconhecido
Um grande progresso foi verificado na ciência biológica
na segunda metade do século XX. Detalhes antes inimagináveis
com respeito à estrutura e funcionamento da célula
foram descobertos em nível molecular.
Uma dessas descobertas é a molécula do ADN: a chave
para o armazenamento e transferência do material genético.
As moléculas do ADN possuem duas cadeias complementares
de quatro constituintes diferentes, chamados de bases ou nucleotídeos,
que aqui representamos por A, G, C e T. (Não faremos uso
de toda a terminologia biológica usual.) Uma cadeia de
símbolos pode ser usada para transmitir uma mensagem como
num texto escrito. Alguém poderá perguntar se é
possível ter uma linguagem escrita com apenas quatro símbolos.
Na realidade, necessitamos apenas de dois símbolos para
armazenar dados escritos. Toda codificação nos computadores
é feita com cadeias de dois símbolos: 1 e 0. O texto
que você está lendo foi originalmente composto com
o uso de um computador e quase 100 diferentes símbolos
gráficos. Como se consegue isso?
As cadeias de 1 e 0 são agrupadas de oito em oito. Como
para cada posição das oito há duas escolhas,
256 (2x2x2x2x2x2x2x2) símbolos diferentes podem ser codificados
com cadeias de dois símbolos, em grupos de oito, como no
exemplo abaixo:
11001010 01010010 10001011
11101101 01000101 10110111
No ADN ocorre algo semelhante. Quatro símbolos diversos,
organizados em grupos de três, podem definir 64 (4x4x4)
“caracteres” diferentes.
Quantas bases há no ADN para codificar toda informação
genética de um ser vivo? O número de bases varia
em cada espécie. Uma bactéria simples como a M.
genitalium tem 580.000 bases em seu ADN. A bactéria E.
coli possui seqüências com 4.670.000 bases. A Drosophila,
mosca-das-frutas, tem cerca de 165.000.000 bases. Os seres humanos
possuem seqüências de ADN num total aproximado de três
bilhões de bases.5 O número de seqüências
diferentes que podem ser criadas com 580.000 bases é gigantesco
e difícil de ser entendido. Pode ser escrito como 4580.000
= 6,2 x 10349.194. Para escrever esse número como uma seqüência
de numerais arábicos são necessários 349.195
dígitos. Levando-se em conta que um grupo de três
bases representa um caractere no alfabeto biológico, com
seus 64 símbolos possíveis a informação
genética da M. genitalium é equivalente a um texto
com 193.000 caracteres. A matéria que você está
lendo tem pouco mais de 11.000 letras. A informação
genética de um ser humano, com seus três bilhões
de bases, seria capaz de formar um texto com um bilhão
de caracteres. Isso equivale a cerca de 100.000 textos semelhantes
a este. Mesmo considerando que apenas cerca de 5% dos três
bilhões de bases sejam responsáveis pela codificação
das proteínas, a quantidade de informação
é estonteante.
O que está “escrito” nesses “textos”
de informação genética dos seres vivos? Sabemos
que ela inclui todas instruções necessárias
para o funcionamento de um ser vivo, embora ainda não tenhamos
compreendido plenamente seu complexo maquinário bioquímico.
De onde veio toda essa informação?
Considere o ensaio que você está lendo. Ele foi
produzido por uma inteligência; nesse caso, um ser humano.
Ninguém pode dizer ou imaginar que algum dispositivo automático
escolheu as letras ao acaso para compô-lo, ou que haja um
mecanismo natural que possa colocar as letras em seus lugares
corretos. O texto é suficientemente complexo e especifico
para tornar irracional a pressuposição de que ele
apareceu por acaso, ou mediante causa natural não-dirigida.
Se isso ocorre num simples ensaio como este, quanto mais com
a informação genética, muito mais complexa
e especifica do que este texto? Ela deve ser, portanto, atribuída
apenas a uma fonte inteligente. Se essa agência inteligente
não pode ser encontrada na Terra, deve ser extraterrestre.
A biologia e a bioquímica, na segunda metade do século
XX, em sua busca para compreender as bases moleculares da vida,
descobriu evidências claras da existência de inteligência
extraterrestre. Porém, o pensamento naturalista está
tão arraigado em nossa cultura, que esse feito não
é comemorado na comunidade científica.
Mas não é necessário todo esse conhecimento
para se chegar a essa conclusão. Há muito tempo,
antes do desenvolvimento da ciência moderna, Davi escreveu
acerca do Deus Criador: “Pois Tu formaste o meu interior,
Tu me teceste no seio de minha mãe. Graças Te dou,
visto que por modo assombrosamente maravilhoso me formaste; as
Tuas obras são admiráveis, e a minha alma o sabe
muito bem” (Salmo 139:13, 14, RA).
Notas e referências:
1. Ver SETI Institute, na at http://www.setiinst. edu/Welcome.html;
What is SETI? na http://seti.uws.edu.au/main/what.htm; SETI FAQ,
na http://www.space.com/ searchforlife/seti_faq.html; Harvard
2. F. Drake, Contemporary Radio Searches for Extraterrestrial
Intelligence. Na http:// www.seti-inst.edu/science/ contemporary_radio.html
3. C. Sagan, Contact: A novel (New York: Simon and Schuster, 1985);
Mass Market Paperback, 1997).
4. A expressão “complexidade especificada”
foi introduzida por William A. Dembski em The Design Inference
(Cambridge University Press, 1998).
5. Ver Functional and Comparative Genomics Fact Sheet, na http://
www.ornl.gov/hgmis/faq/compgen.html
Artigo publicado em REVISTA DIÁLOGO UNIVERSITÁRIO
Fonte: http://dialogue.adventist.org/index_p.htm
Autor: Urias Echterhoff Takatohi
- (Doutor em Física pela Universidade de São Paulo)
ensina ciências no UNASP — Centro Universitário
Adventista de São Paulo, Brasil. E-mail: UriasT.Acad.IAE@iae-sp.br
Link Relacionado: http://www.scb.org.br